sábado, 26 de março de 2011

EM/CENA/AÇÃO!

Alguém disse certa vez que só há dois tipos de escritores: os que escrevem e os que não escrevem...

Às vezes... às vezes estou tão povoada de palavras que não consigo escrever ou descrever...

E às vezes... às vezes diante de alguma cena, que sei que é extremamente importante – crucial, mesmo – em minha vida... deixo meu corpo com as palavras e me desloco do corpo... e deslocada de mim, simplesmente assisto... Às vezes são cenas completamente hilárias... outras, pura emoção! Mas... mas há aquelas em que esse deslocar é pura proteção...

Um bom texto no contexto gêmeo é sempre uma excelente peça... E quantos belíssimos e comoventes espetáculos o teatro da vida é capaz de nos proporcionar... são presentes... sempre presentes...

Um dia desses, num desses espetáculos, chorei... Chorei justamente diante da cena em que eu chorava... Quando um ator é capaz de emprestar sua própria emoção à sua personagem, todos os espectadores também se comovem.. E eu assistida ali era muito mais do que as palavras ditas... era, principalmente, as não ditas; e por ter tanto a dizer me calei... nas minhas entranhas as palavras gritavam... discutiam... clamavam à atenção... queriam ser ouvidas... e mais... ser sentidas!
Houve tamanho atropelo entre elas, que no desespero pela tentativa de comunicação, todas se dirigiram às pressas para as cordas vocais... mas, como eram muitas... entalaram na garganta. E o nó que formaram permitiu a passagem apenas de umas poucas... bem poucas mesmo...

E eu ali assistia aquele eu sempre tão seguro, sempre tão falante... ali, diante do outro que no meu silêncio roubava a cena...

E então, ouvi-me dizer com lágrimas silenciosas: “Que belo texto isso daria...”
Algumas outras palavras se arriscavam na tentativa de desvendar o sentimento presente... e vestiam-se com suas melhores significações... mas diante da frieza no outro... uma a uma se viam despidas... tinham as entranhas arrancadas... e esvaziadas sucumbiam... Eram inúteis!
As palavras e os respectivos conceitos por elas formados só servem quando há ao menos um sentido...
A cena por mim assistida era comovente... percebia as linhas, as entrelinhas e as sobre linhas... Eu me via com lágrimas nos olhos e com lágrimas assistia... Mas ambas fomos caladas não com palavras... mas com um olhar...
As palavras do outro eram gentis... doces...mas eram todas tingidas de um amarelo gritante: covardia! Algumas pessoas se escondem atrás de belas palavras... outras se expõem... e as palavras servem igualmente... democraticamente à covardes e heróis... mas os covardes... esses sempre sobrevivem...
E era justamente esse o contexto daquela cena... Um covarde assassinato de um eu... E em lágrimas publicamente expostas uma morria e já era outra que assistia...

E desde aquele momento há tantas palavras em mim... que ainda estou tentando organizar uma fila para que desfilem o belo texto que uma triste história fará nascer... é triste sim... mas sem dúvida um espetáculo para ser aplaudido em pé...
É a vida na sua mais clara expressão...

sábado, 19 de março de 2011

CILADA



“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá s'imbora!”

“Cabra-cega”?

E, na infância, somos mesmo todos a brincar e gargalhar, juntos e de mãos dadas, iguais... reais? Ou como “anjinhos” a sonhar a utopia da igualdade querida?

A menina na ciranda a girar crescia...

E, no meio da roda, com os olhos vendados, na brincadeira mesclada, sem perceber ou querer, o tempo a perpassava.

Girou, girou... Cansou... Suou! E assim, de repente, do nada, a venda de seus olhos escorregou...

Oh! Dom Quixote e seus moinhos de Vento!

O que seria tudo aquilo a seu redor? Seus olhos habituados à escuridão estariam agora a lhe trair a visão? Seria sua imaginação? Rodara tanto que teria perdido a noção?

Não entendia... Acabara de dizer um verso tão bonito... O mais bonito que sabia... E agora que parada se vira, vira-se cercada de assombração!

E o que seria isso em suas mãos? Todos sem exceção traziam empunhadas afiadas espadas miradas em sua direção: touché! E sua cabeça girava... girava como a repetir não sei... não sei!

Não... Não teria tempo de tentar entender mais nada, ou sequer nada. Seu sorriso de criança já havia desaparecido da face quando sentira o primeiro corte que a fina lâmina provocara e decididamente a despertara!

Não! Não era mesmo um sonho! Todos ali a cercavam e a atacavam... Por quê? Não sabia! E dissera um verso tão bonito... (Deveria, então, ter dito adeus e ido embora!)

Quanto tempo se passara? Enlouquecia, enlouquecera? Esquecera?

Não importa! Não importava mais! Urgia que se defendesse!

Mas, eram tantos a cercá-la e a desferir golpes e mais golpes... Mas, notou em choque que também ela estava armada. Como? Não sabia, mas em sua mão havia sim um sabre com o qual instintivamente se defendia.

Não demorou! Logo entendeu que não bastaria se defender. Cansou! Desmoronou... Até chorou; não adiantou... Nada os detinham! O que será que os moviam?

Quando menina, ali mesmo, naquela ciranda, sempre ficara ruborizada de vergonha – vermelha mesmo –; tímida que era, sentia medo da não aceitação de seus versos, que talvez não fossem tão bonitos quanto os quisessem.

Hoje, Agora! Agora também estava vermelha... Estava banhada com o sangue dos cortes que recebera... E dela, o sangue tudo tingia... Estava fria... Já não mais se reconhecia!
E ao longe ouvia o eco que se repetia: ciranda, cirandinha...

E, afinal, qual era mesmo o verso?

Não importava mais... Agora tudo era o inverso! Reverso!

Não havia mais risos, mãos dadas nem confraternização... Tudo só assombração!

Uma ciranda de malditos fantasmas que com mal ditos versos atacavam com mal ditas palavras a menina que declamara tão belo verso!

Sim! Este instante é mesmo uma ciranda! Ciranda que gira como girava as crianças d'antes... Mas, que não declama versos; os reclama!

A vida gira, gira... Gira! Te entontece... Enlouquece e...

E quem segura sua mão?

Grande Ciranda na qual todos cresceram e desenlaçaram as mãos!

Ah, Dom Quixote e seus moinhos de vento...

De tanto defender-se a menina cansou, desmoronou e até chorou...

E agora deve decidir: abrirá o peito para o golpe fatal? Ou como animal atacará como igual?

segunda-feira, 14 de março de 2011

OUTRA DIMENSÃO

Perdida, louca, desvairada...

Adjetivos que nela atiravam!

E assustada por becos vagava...

Menina assustada; assustada mas valente também! Às vezes calava outras gargalhava.

O fato era que não se conformava; não se sentia daqui, não entendia bem as palavras, delas desconfiava... Sempre achava que elas eram todas grávidas de algo mais...

Os seres daqui dizem algo pensando em outro; e tantos outros tingem suas palavras com ironias e ambiguidades que a comunicação se dá por mero acaso ou quase telepatia...

Mas quando ela ousa desnudar a palavra dita e tantas vezes mal dita, pronto! Chovem adjetivos...

Louca! Não consegue controlar sua imaginação? Doente! Demente! Burrrrrrrraaaa!!!

E tanto se disse, que ela mesma se convenceu...

Mas, um dia... Tresloucada que estava, rompeu seus limites e mudou de dimensão!

Como sempre fazia, sozinha, por becos caminhava... Se real ou imaginário? Como saber, se era só que caminhava...

Pois bem; radicalizara: um belo texto a apaixonara...

E louca que era... Perdeu-se! O que fazer com tantas palavras que tanto podia dizer-lhe... Queria fosse só o que estava ali escrito... Não, não queria as entrelinhas, as metáforas possíveis, as ironias... Queria o texto objetivo – embora tudo fosse ali subjetivo como ela entendia o objetivo - como jamais havia conseguido ser! E o ser do texto dizia que assim o era...

E o texto era tão louco como louca era ela! Ela já estava lá em outra dimensão, abraçada em um texto que parecia tão seu... tão irreal quanto ela... E quando ela finalmente julgou ter encontrado alguém como ela... Quando ela finalmente o abraçou...

Quando emocionada ela o abraçou... Talvez ela mesma não tenha se feito legível... Mas, o fato é que ele com as mesmas palavras tingidas e fingidas a empurrou e com um novo adjetivo acrescentou: assombração! - Sai pra lá assombração!

Perdida, louca, desvairada... E, agora: assombração!

Terá sido um erro de interpretação? Uma alucinação! Aliteração?!

Assustada sim... Covarde não!

Feito fantasma, cada vez mais calada e assustada, a menina caminha por becos e palavras dessa e outras dimensões...

sexta-feira, 11 de março de 2011

ALIMENTANDO A HUMANIDADE

(CADA UM A SUA MODA)

Tudo o que há O que restou São fragmentos que não mais se encaixam
Mosaico destruído Pedaços espalhados Perdidos Corroídos Digeridos
A imagem no espírito permanece Intacta Intacto
O não-entender é agora mais nítido
A carne esfacelada do corpo esquartejado já não sangra Sangrou
Na sangria O sangue sangrado não fora desperdiçado
Vampiros Desnutridos também dele se nutriram
Quando indefesos Pequenos balançavam pendurados nas tetas que
sugavam
O corpo inteiro com eles se arrastava Doava-se
E sem ais deixava-se sugar Esvaziar
Latejava
Tantos desejos
E assistiu os seus perecerem
Eram tantas bocas Tantas carências saciadas
E a arrastavam E os arrastavam
E pendurados Descansados Corpos cresciam Almas pereciam
Envaideciam
No lacto branco que das entranhas escorria Sorriam
E as presas que nasciam Nas feridas que abriam Tingiam de rubro a
saliva que lambiam
Jazia Brotando na mente a semente Incoerente
Cruel o instinto foi desperto (Des)corberto No cheiro da presa já
ferida
E em coro No couro em que batiam um eco ao longe se ouvia
Aca..............................Aca..................................Aca
Dilacerada Ao ser devorada já sabia Entendia
Que ao ser degustada Era vaca o que gemias
Sim Era vaca o que comias...

quinta-feira, 3 de março de 2011

DISPERSAO

Por que estas malditas
lembranças?

Como casa
mal-assombrada; navio-fantasma, a esmo, eu, cada dia, um novo eu, à
toa, sentindo o sangue a me corroer através das veias como poderoso
ácido que me dilui...

Sou novo todo dia!

Não sou o que ontem
fui, me desconheço e assim também os desconheço... São todos
renascidos ao meu redor... Como se não dormíssemos; morremos e de
nós a cada dia outro se forma. Ou nos espalhamos como peças de lego
e de manhã somos remontados de novo num novo... Tipo: 'deixa-me
pensar o que montarei agora...'

Tudo um novo sonho! Uma
nova quimera...

Mas, então... Então,
por que estas malditas lembranças? Memórias que fazem parecer que o
eu-novo já fora eu-mesmo?

E este novo dia? De que
me serve um novo dia, se estou grávida de passados? Grávida de
fantasmas e de dias e fatos que me faltam tanto que sinto tanto e
tanta falta como se nunca os tivesse tido, vivido... Sentido! Como se
fosse desejos; uma necessidade vital... Fatal!

Sei que cada dia ao
acordar sou novo... Não sei quem sou! Não sei quem está ou estará
a meu lado, onde sequer estarei.

Falam em essência;
evolução... Balela!

Em cada  novo dia, cada
despertar, há uma certa magia que como tal não podemos explicar...
Tudo muda de lugar.

Falam de futuro, fazem
planos; outros dizem que há de se viver o presente que é isso o que
há!

Mas, então, pra que
estas malditas lembranças?

Estas malditas
lembranças que fazem suspirar... Levitar! Sentir tanta falta do que
fui, do que vivi como se de fato fosse uma falta de algo que
precisasse desesperadamente alcançar.

Não! Não é verdade
que o passado passou! Ele não passa! É ele que nos faz despertar e
crer que não somos o novo todo dia que nascemos de novo! O passado é
o único presente que se apresenta no dito presente e insistentemente
te repete sem pudor como gralha desafinada: você não é outro, não
é novo; lembre-se....

E a cada novo despertar
o passado passa a recitar tudo o que já fora e roda o filme com
efeitos especiais e com imagens mirabolantes e te prende; filme que
você talvez nem quisesse mesmo ver, saber; recordar! Queria mesmo
mudar! Talvez doa demais ;e talvez ele dure todo o novo dia para
terminar de rodar... E sua cabeça roda junto ,e você e seu mundo
tudo gira numa enorme cilada... salada em que o passado é presente e
o presente não existe jamais... Pois este movimento, talvez se
repita todo novo dia ao despertar... 

O passado não passa!

E, no entanto, o novo
eu se apresenta todo dia... Todo novo dia, em algum novo lugar,
cercado por novos seres... Esperando talvez a revolução; em
vanguarda!

Somos uma maldita
quimera...


Qmerda!

sábado, 29 de janeiro de 2011

INTERPRETAÇÕES

Como naqueles filmes em que tudo está em preto e branco, e do nada aparece alguém com detalhes coloridos, assim todos notavam aquela mulher que passava...
Cabeça extremamente erguida, como se outrora fosse da nobreza, óculos escuros, como se assim pudesse esconder dos outros a alma que a corroía... O que teria nela de tão secreto que quisesse esconder? No entanto, o colorido que expunha era tão chocante que era absurdamente inevitável não olhar... Mas, como seu próprio olhar não pudesse ser visto, sua expressão era desconhecida. Ao caminhar parecia gélida... Poderia se dizer: um iceberg ambulante... Mas, estava longe disso... Mas, como saber sem fitá-la, sem conhecê-la?
Andava, como já foi dito, de cabeça extremamente erguida, e os passos eram apressados, olhares mais atentos notaram as mãos tremulas... Se é que se pudesse chamar aquilo de mãos... Ta bom! Eram mãos... Mas... Mas, não havia pele... A mulher estava absolutamente deformada... Será que não sentia dor? Como conseguira sair de casa naquelas condições? Como conseguira colocar roupas? Como sustentava os óculos naquele nariz também sem peles... E... Aff... O que haveria por debaixo daquele vestido esvoaçante...
Será que tudo se poderia ver? Um coração palpitando entre os pulmões... Estomago e intestinos... Tudo estaria exposto?
Deus! A mulher estava pelo avesso!
O dia estava bonito, um belo dia de sol, porém fresco... Ventava gostoso... E seus cabelos longos e avermelhados esvoaçavam brilhantes como o de gente qualquer... Como se estivesse a passear ou a resolver negócios quaisquer... Parecia não se dar conta, não notar... Não ligar... Sua postura... Sua altivez...
Havia cochichos, burburinhos, todos sem dó nem piedade apontavam a mulher às avessas... Era mesmo uma aberração... E, não era necessário que se dirigissem diretamente a ela, ninguém se dava ao trabalho de ser sutil... Estava estampado na cara, e nos gestos de todos, que a queriam fora dali... Que a queriam trancafiada em algum lugar... Ou talvez em algum tipo de circo como aberração a ser apresentada como atração e distração... Que ali não era o lugar dela... Pois igual não era!

A comunicação é! A boca fala, o corpo cagueta!1 Por debaixo dos óculos escuros, a mulher tudo observava e tudo entendia... Não precisava dos ouvidos... Nada precisava ser dito... Não era telepata, e de telepatia não precisava... Neurolinguística meu filho... Neurolinguística!
E a mulher em carne viva... Vermelho-sangue, cabeça extremamente e exageradamente erguida a passos largos andava entre os em preto e branco...
Que bela cena para ser registrada... Que pena não haver por ali nem um fotografo de plantão... Quem sabe valeria um prêmio... Quem sabe não sairia na capa de alguma revista famosa, chic ou de fofocas... Não importa!
Não importa, principalmente, porque quem viu tudo isso foi a própria mulher do avesso...
Sim... A cena existiu de fato? Não sei! Eu mesma não estava lá... Não posso atestar com certeza... Confesso que apenas soube por acaso...
Mas, sabe aqueles dias, em que você sai de casa, e parece que se esqueceu de vestir algo? Ou àqueles dias, em que todos te olham tanto que você chega a ter a impressão de estar nu(a)? Pois é... Àquela mulher... Tinha certeza que estava do avesso! E quanto mais olhavam pra ela, mais esticava o pescoço e mais alargava os passos... Claro, que queria sair do meio daquela gente sem cor e sem graça... Queria ir pra qualquer lugar... Mas também não queria voltar pra casa... Lá todos olhavam pra ela do mesmo jeito... Sentia-se mesmo do avesso... Ou seria o mundo que estava... Afinal, nada tinha cor... Nada mais tinha tinta ou graça... Graxa talvez... Afinal, tudo era um só limbo... Do avesso, alma penada... Limbo...
Será que morrera?
Não! Tinha certeza, que ainda estava viva... Seu coração palpitava tão acelerado que já parecia entalado na garganta... Cada um daqueles olhares a acertava como uma flechada no peito... Por que no mundo, país, cidade em que nascera era agora tratada como estrangeira... Por que amigos, colegas e conhecidos de tão longas datas agora a olhava com olhos de forasteiros?
Bem... Devo confessar, que também eu a conheci menina... E... Bem... Posso garantir que não era uma garotinha muito normal não... Bichinho do mato... Calada demais... Estranha... Parecia um cofre... Havia nos olhos dela tanto medo... Lampejos de tantos segredos... Mas, depois, mocinha, melhorou... Pareceu-me que aprumaria na vida... É, por algum tempo, pareceu-me ter uma vida normal... Mas, agora vejo que se protegera com máscaras e máscaras e por anos e anos vivera um grande baile de carnaval e nele fez amigos e amantes e nesse baile sorriu e rodopiou... Rodopiou até entontecer... Enlouquecer e cair...
Caiu! E foram tantas danças e tantos rodopios que quando caiu, todas suas máscaras se partiram... E foi assim que se viu no meio da multidão do avesso...
Do avesso?
Do avesso nada! Se sentira do avesso, porque era só ela... Ela de verdade, sem máscaras no meio de tanta gente estranha sem cor e sem graça que fora amigos, amantes e colegas de suas máscaras... E, agora que ninguém mais a reconhecia? E agora que ela mesma enlouquecia com o que sentia? Com o que via e percebia...
Estava mesmo despida na multidão... E despida era só emoção! Mas, aquela multidão que tão bem conhecera um dia... Tudo era um só corre corre e no fim do dia mais um porre... Uma eterna agonia de contar o que se tem o que se quer ter, o que se guardou e o que se projetou... Quem mais trapaceou... Quem ganhou, quem sacaneou... Quem mais poupou? Notou quem está mais bem vestido... Quem comprou o melhor vestido... Quem é aquele maltrapilho? Quanto ganhou com aquele que fez perder? Brindamos a desgraça do alheio? Salut!!! E assim, anos e anos... A vida passou em preto e branco com tudo às avessas...
Então quando caiu... Quando caiu em carne viva... Quando enlouquecida se viu as pressas de cabeça erguida... Percebeu que mesmo dolorida e fugitiva é mais bem acordada e viva... Pois as avessas está o mundo a chorar por dentro... Escondido...
O que fazem os executivos, os advogados, os grandes e pequenos profissionais depois de seus porres (happy-hours) a noite em seus quartos com ou sem companheiros(as)... Pensam às avessas ou tomam seus calmantes e capotam até o outro dia em preto e branco a bailar?
Em carne viva, a louca, às avessas, ou melhor, do lado certo... Pura emoção... Está agora por aí a desafiar a visão de todos... Como a lembrar que a vida meu irmão é muito mais que dinheiro e televisão! Que propaganda e ostentação...
E ela doida varrida agora grita em algum lugar, que todas as águas chovidas, escorridas, que fazem desabar barracos e vidas não são mais do que lágrimas contidas, que nas noites escondidas escorrem não mais desunidas dos sonhos esquecidos para o real mundo vivido, para quem sabe acordar toda uma cidade adormecida...


sábado, 1 de janeiro de 2011

Indignação/barbárie


Eram mais ou menos vinte e duas horas quando minha filha ligou chorando, perguntando se no Hospital das Clínicas havia dentistas... - Como assim??? Não sei! Mas, se tiver só atende emergência! – Mas é emergência. – Você está com dor de dentes? – Eu não, mas o fulano sim! – o fulano está com dor de dentes??? Ela quase perdendo a voz me diz: – Ele foi espancado, está sangrando muito e perdeu três dentes. Como aconteceu??? Por quê??? Pois é... Aconteceu próximo ao metrô Santa Cruz, mais ou menos às dezenove horas... Eram três rapazes, que sem dizer absolutamente nada, e do nada, jogaram nosso amigo no chão e começaram a espancá-lo... Chutes e pontapés no rosto dele, impediram que ele sequer pudesse ver quem o atacava... Detalhe: tudo se passou entre o vai e vem de pessoas... E ninguém... NINGUÉM interferiu!!!
Por quê??? Por que foi espancado? Por que foi o escolhido? Por que ninguém interferiu? Por que essa violência banalizada??? Por quê?
São tantos porquês sem respostas que temo sequer ter o que escrever...
Fiquei mesmo meio zumbi com isso... Mas UM porquê não cala em mim...
POR QUE o preconceito???
Por que o porquê do preconceito?
Pois é... Esse menino... Esse menino, que agora entre os seus cuida das feridas, tem na verdade uma alma de menina... Eu o conheço já faz alguns anos e nunca deixei de notar o conflito em seus olhos...
No começo era um não-entender a própria natureza; e também o vi se tornar cristão na tentativa de buscar proteção e forças para reprimir o que não entendia... Depois o vi mais maduro e embora discreto já não lutava mais contra a sua natureza... E quando ele finalmente se abriu pra amiga – minha filha – eu o admirei ainda mais e fiquei feliz pela auto-aceitação...
Não quero tecer aqui explicações sobre o como ele(a) é uma boa pessoa... Não vou fazer isso!!! Ele é um amigo... E como todos os que tenho não é perfeito e nem se pretende ser... Não escolho meus amigos pela orientação sexual... Mas, isso não tem nada a ver com a estupidez que fizeram com ele... Ele poderia ser uma bixa espetaculosa... Ele poderia ser um espúrio... Poderia ser o que quisesse... e mesmo assim... Não estaria justificada tamanha barbárie... Percebam que ele nada fez para ser espancado... Foi a presença, a simples existência dele que ofendeu tão machos rapazes...
Por que o diferente choca tanto??? Quem foi que nos ensinou que direitos iguais exigem que sejamos iguais??? Que sintamos iguais??? Que desejemos iguais??? Quem foi que ensinou que o que faço com minha bunda, seja da conta do outro??? E se fosse??? E se eu te cantasse agora??? Estaria te ofendendo??? Por quê??? Não tenho o direito de desejá-lo???? Se sou do mesmo sexo que você, você se ofende??? Por quê??? Tem medo??? Medo de aceitar??? De gostar??? De se sentir lisonjeado(a)??? Ora, façam-me o favor.... As pessoas discutem política... Discutem arte... Discutem tudo o que julgam ser cult... E, no entanto... No entanto, não sabem sequer lidar com o diferente ao seu lado... E pior... Levantam a bandeira contra a alienação e, no entanto, quando testemunham uma barbárie dessa... Passam rápido... Não olham muito... Melhor... Fingem não ver! Não se comprometem!!!
Estou exagerando??? Vão me dizer que as pessoas “cabeças” estão/estavam? todas aqui na net e, que naquele momento, não havia passando por ali, ninguém suficientemente esclarecido para ao menos chamar a polícia??? Tudo é muito bizarro...
Não sei bem o que é ser igual... Mas, talvez, só talvez... Sejamos iguais justamente pela capacidade de ser diferente o tempo todo... Por essa capacidade de se metamorfosear... Somos iguais por termos igualmente a capacidade de em mesmas circunstâncias e ambiente sermos o que sentimos necessário ser... E esse ser necessariamente não tem que coincidir com o ser ao lado... E sobre igualdade... Alguém acredita mesmo que os direitos são iguais??? O Caráio! Não entendo o conceito de igualdade... Deve mesmo ser ignorância minha...
Que fique aqui registrada minha indignação!
Vou voltar mais tarde e vou falar sobre sexo, que é a proposta desse
blog... vou continuar falando de sexo... do jeito que me der vontade
de falar... Se quiserem me taxar de vulgar... de vaca... tudo bem...
Por que o que me indigna nessa vida... não é a forma com que falamos
ou fazemos sexo... O que me indigna é a imoralidade é a falta de
ética com que as pessoas tratam as outras quando não há nenhum
vínculo sexual entre elas... é muito fácil arrotar intelectualidade
e ética nos artigos e nos livros... assim como é fácil fazer a côrte
e tentar impressionar com palavras bonitas àqueles que queremos
comer... ou dar... o difícil é estender a mão, a compreensão o pão
ao necessitado a frente... ao lado... na multidão..
MERDA!!!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

PHOENIX

Morri!

            E tantas vezes morri...
            E tantas vezes em luto assisti um outro eu comovido com o funeral do
            eu que vira agonizar... Que hoje me pergunto se quem morria era o eu
            que perecia ou o outro que como feto apodrecia...
            Eis que de todos os eus... o que nunca consegui matar é justamente
            esse eu tão subjetivo... E aí me vem você... É! Você, caro leitor, e
            me pede mais objetividade... A única objetividade que conheço é
            justamente aquela que me mostra o subjetivo desse mesmo objetivo...
            hein??? Vamos! Seja mais objetiva, ouço o tempo todo... Mas de que
            objetivo estás falando... Daquilo que você vê? Mas, se é você quem
            vê, como poderei ver igual??? Ora, por favor... seja subjetivo para
            que eu, quem sabe, consiga entender de forma objetiva...
            Afinal, afinal morri mesmo... Mas morri outra... Claro que vi você
            em meu enterro... e agradeço as flores que levaste... mas as suas...
            as suas, diferente das outras que recebi... não eram banhadas por
            lágrimas de saudades... e não poderiam mesmo ser... era outra que
            matara... aquela era produto da consciência que tu mesmo
            produzira... e era tão objetiva... não era??? Mas, sim... as flores
            que levara, sabia que era para já seduzir a outra que nascia... Mas
            a outra... A outra também já era outra... Você tem o hábito de
            confundir tudo...
            Sei que não morri em vão... é preciso mudar... e talvez seja
            necessário mesmo... talvez tudo o que faça sentido seja essa
            mudança... Mas já morri tanto, que temo nunca mais tirar o luto... é
            um eu que se vai... e um eu que chega... um eu deteriorando e um eu
            comovido que se (re)faz... e quando penso que finalmente sou eu quem
            aqui se assume... já agonizo com a visão do eu em preto que se
            aproxima...
            É isso! Por que essa melancolia? É que estou prestes a morrer de
            novo... e você... e lá vem você cobrar a objetividade de novo...
            ahhhhhh, quer saber? É você o fantasma... é você quem morreu sem
            ninguém para assistí-lo... você morreu e não percebeu... andas
            vazio... zumbi... e só andas por sugar tantos eus que canso de
            enterrar...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

HOMO HIPOCRITUS

(O outro) – Ciumenta...
-– Ciumenta, eu?
 Claro que não, ciúmes são para não-civilizados.
Amor, paixão... Atração sexual, feromônios!
 Há várias maneiras para se discutir e justificar um relacionamento; mas no final de toda a discussão sobre o tema sempre se acaba apelando para o politicamente correto... Sempre o racional é chamado para justificar e controlar o bicho em nós...
Bichos domesticados não têm vontade... Não podem ter... Devem sempre se comportar... Obedecer... E, humildemente reconhecer o seu lugar... Bichos domesticados são bonzinhos... Educados... Não atrapalham... Fazem xixi e coco onde foi indicado... São treinados... Devem se calar quando mandarem e devem de cabeça baixa e abanando o rabo se dirigir ao dono sempre que solicitado... Devem sempre estar dispostos a um carinho, mesmo que com dor de dentes ou barriga... Bichos com personalidades são selvagens... São bárbaros e por isso mesmo inconvenientes e merecem ser banidos do convívio social..( O que aliás agradecem de antemão...)
Pois então... Onde foram parar nossos instintos... O que aconteceu com o bicho em nós??? Morreu??? Claro que não, do contrário não teríamos teses cientificistas a respeito de feromônios, por exemplo... Ahhhhhhhhh, dirão alguns que está submetido ao comando da razão... Afinal sempre fomos muito mais do que reles animais... Somos animais racionais!!! Ou... Animais autodomesticáveis...
Pois estou cansada de tagarelice... Minha razão me avisa o tempo todo dos perigos e incoerência das paixões e no entanto... No entanto, ela nada pode contra minhas tendências... Acabo sempre me dando... Me entregando... Desejando o que ela me diz ser pernicioso... Então, quero que se cale em mim a voz estridente, irritante e impotente da razão... Que mais parece aquela tia velha e recalcada reclamando obediência e repressão o tempo todo e que no entanto não tem fôlego para alcançar o traquina desobediente que insiste em correr atrás do que tem vontade... Cansei... Separemos o joio do trigo... Razão é razão e paixão é paixão!!! Cada um, cada um!!! Se for para elaborar uma tese para o bem da humanidade que se apresente a razão com sua orgulhosa sapiência... Mas se o assunto for paixão que seja então sepultada a tia velha... Se fui fêmea e me dei... Se fui fêmea pra em quatro patas me servir a você e recebê-lo completamente em minha carne... Em minhas entranhas... Se depois do gozo, como simplesmente fêmea, lambi o resto de seu sêmen... Se fui fêmea para como qualquer outro animal acasalar com você e com você me lambuzar nesse cio... Quero também marcar meu território... Quero mijar em você!!!! E assim todos estarão avisados... E, se teimarem... Se ousarem se aproximar do meu macho... Ai então terão que ser só bicho também... Quero morder... Quero ofender... Quero arranhar... E, descabelada, ,babando e urrando bater no peito e gritar que o que conquistei como animal... Como animal defenderei... Estou cansada da civilização... Todos escondem seu animal atrás de etiquetas e amabilidades... E, é só da sutileza que nasce a crueldade... Estou cansada de hipocrisias... O homo sapiens fácil se tornou o homo-hipocritus...
Ciúmes??? Eu ??? Que besteira... rs

domingo, 28 de novembro de 2010

VAZIO


Choque...
Foi isso...
Entrei em choque!
Queria contar para vocês; mas como contar, se estava ainda em choque?
Queria escrever, e simplesmente não conseguia!
Ai, fiz o seguinte exercício: arregalei bem os olhos... Bem mesmo. Sei que diante deles há todo um mundão, milhares e milhares de coisas, e minúsculos detalhes... Por meus ouvidos entram, a todo o momento, todo o tipo de merda audível, algumas, não posso negar, são até bem carinhosas, mas, merdas! Em choque nada parece significar nada mesmo.
Mas, Vamos ver se transformo isso em algo mais palpável...
Parece que de repente me transformei em um móvel velho... E, esse agora se infestou de cupim... É, deu cupim em mim! Estou me desfazendo... Desfazer! Que bela palavra! (des)fazer! Era feita, agora me (des)faço! Me (des)fazem! É isso! Qualquer dia, simplesmente (des)apareço! Não porque fui embora, porque desisti... Não! Simplesmente porque sucumbi... Esvaziei! Esvazie de vez mesmo! Os cupins... Os cupins tão pequenos... Criaturinhas tão insignificantes, mas de tantos que eram a me corroer por dentro, pluft! Me (des)fizeram!
Não importa!
Arregalei bem os olhos até que ardessem... Senti mesmo que avermelharam, senti as lágrimas que os umedeceram... Queria sentir meus olhos tentando se olharem... Tentando imaginarem o próprio olhar... Queria o flerte dos meus olhos! Não, não! Queria o espelho! Sei que o espelho me daria o oposto do que queria, o oposto do próprio flerte...
Sabem o que percebi neste esforço?
Nada!
Nada mesmo!
Me perdi, Me afoguei nas mágoas e águas em que tanto nadei nesses dias, dias que pareciam não mais acabar... Tudo era só um dilúvio que transbordava... Dias em que meus olhos como duas minas ou lençóis deixavam fluir incansavelmente as águas que minha alma ainda tenta justificar... Purificar... Perpetuar!
Mas, para que explicar... Deixa a emoção transbordar... Deixa chorar... Só recolhe o sal...
Quem sabe, tempere ainda sua carne tão sem sabor... Sem cor...
Recolha sim o sal... Quem sabe algum desavisado nele deslize e também sinta dor...
Estes olhos que agora arregalo, como aqueles que crianças famintas trazem, foram minas, rios e mares e transbordaram, concretizaram em águas tanta dor que não sei quantas ave-marias seriam necessárias para calar tamanha aflição, desamor, frustração...Queria mesmo era partir... Desistir! Haveria quantidade suficiente?
E o choque foi convertido em água! Água benta? Não, claro que não, pecadora que sou... Água magoada! Água maldita! Daquelas de jogar na privada e dar descarga... Daquela de ninguém por a mão que talvez pegue a má sorte... Choque! E nada escrevi... Chorei!
Mas, agora estou escrevendo, não estou! Arregalei os olhos, e agora eles só ardem... Já Passou!
Agora, estão secos, secos feito o nordeste, como o nordeste de Severinos e Marias... E não é a toa que sou também Maria... Maria vazia, como as barrigas de Severinos, como aquele moço, Severino também, descrito em poema tão bonito por aquela alma tão bonita de poeta de alma cheia e bendita...
Maria vazia e malas cheias e (re)feitas... Alma corroída de novo dolorida. Malas feitas... Alma quase pronta... Se (re)fazendo... Almas se (re)fazem... Quando não, no choque, se perdem para sempre... Talvez as almas penadas que tanto se falam por aí... Não sejam as almas de mortos rebeldes... Talvez apenas de vivos em choque! Zumbis!
Enfim, malas prontas, alma quase (re)feita... E em outro porto serão (des)feitas e (re)feitas mesmo que nunca (per)feitas!
Alma rapariga... Alma dependente de um corpo carente... Talvez dois...
Olhar bem arregalado que percorre paredes vazias...
Mas, cadê essa alma vagabunda corroída? Eu a sinto, mas não a vejo...
Há um silêncio imenso dentro de mim... Mas um silêncio tão grande que incomoda tanto que parece querer gritar...
Será que grita ainda?
Será que gritará algum dia?
Quem será que dará a bofetada que me fará respirar novamente?
Quem me ressuscitará?

Será o silêncio mudo?!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Véspera

Ouve-se aquela insuportável musica do gás... Abre-se o olho e, milímetro por milímetro, vai se enxergando cada pedacinho do que a rodeia... Roupas espalhadas... TV ainda ligada... Por alguns minutos fica-se ali... Imóvel... Os pensamentos todos se misturando com o que se vê e ouve... Há um misto do que é “real” do que foi, do que será e dos sonhos... Sonhos sonhados apenas há alguns momentos ainda adormecidos... Sonhos adormecidos sonhados há muito... E sonhos vividos e vívidos ainda, mas... Mas... Sonhos que também passaram... E ainda tantos outros que parecem brotar... Latentes ainda... Talvez não sonho ainda... Talvez só uma esperança de novos sonhos surgirem...Imóvel fisicamente, tenta-se organizar tudo... Fragmentos de sonhos, televisão vomitando os mesmos excrementos, tentando incansavelmente fazer com que não se pense no que se pensa ou poderia pensar... Mas, como diria o Raulzito a respeito do rádio: é só desligar o botão...
Num primeiro movimento catatônico, senta-se à beira da cama... Maquinalmente passa-se a mão aos cabelos... Gesto bem útil... Se alguém o assiste terá uma imagem mais agradável após esse ajeitar e talvez se perceba também a desolação que levou ao gesto... Como é possível um gesto tão simples significar coisas tão opostas: preocupação com a imagem e desolação? Tudo mexido... Tudo revirado... Tudo confuso...
Levanta-se com passos incertos... E, segue-se o ritual matinal: coloca-se a água do café no fogo, e enquanto espera-se que a água ferva, segue-se o ritual de higiene... Olha-se no espelho próximo a pia... E, observa-se, todo dia, como se fosse uma grande novidade o que se vê... Cada dia é um diante do espelho... Sempre um estranho... Enxerga-se um novo sinal, um novo cravo, um outro inchaço nos olhos... Mas, cada pequeno e novo detalhe dão ao todo um ar estranho... E como negar que esse olhar... Mirar... Fitar o estranho no espelho não faz parte da higiene pessoal? Talvez poucos notem... Mas, o espelho proporciona muito mais do que apenas a verificação física... O espelho é sempre uma revelação!
Escuta-se a água ferver... E a cabeça acompanha o ritmo... Tudo misturado... E há tantos componentes explosivos... Melhor apagar o fogo... Melhor tentar como em alquimia misturar os ingredientes certos e transformar algo insignificante em algo valioso... Açúcar, pó de café, proporção, água, um coador... Hummmmmmmmm que cheiro bom o de café fresco! Às vezes, erramos na proporção, o cheiro é bom, mas o paladar denuncia o erro... Pode-se ajeitar: um pouco de leite, mais açúcar... Quem sabe adoçante, creme de leite... Manteiga... Chantili!
Segue-se o ritual, e cada um tem o seu. Se tudo deu certo, nesse primeiro momento, senta-se e degusta-se algo quentinho e saboroso... Pode-se estar sozinho ou acompanhado... Nunca importa... Dificilmente a cabeça estará vazia a espera do novo... Ela não para! É possível que se escute o falso roncar de alguém que já fora um sonho sonhado, vivido e vívido... Um sonho acordado que agora apenas finge dormir para adiar a visão do pesadelo que parece ter desfeito as malas onde antes parecia um lugar mágico... O mundo dos sonhos reais... O café com leite conforta o corpo e escorrega goela abaixo... Todo o aparelho digestivo parece em festa e é possível realmente sentir o conforto que o corpo sente... Mas, a cabeça... A mente... A mente não sabe o que mente e o que é real... No mundo dos sonhos é sempre tudo possível... No mundo dos sonhos os pesadelos também sabem se fazer presentes... De grego... Mas, presentes...
A cada amanhecer diante do espelho, escutando-se o borbulhar do que ferve, estamos todos mesmo sem saber a esperar... A esperar que tudo se harmonize... Que a alquimia dê certo... Mas, cada momento desses que se repetem religiosamente todos os dias de nossas vidas... É apenas a véspera de seja lá o que for... Alegre ou triste, satisfeito ou infeliz, acompanhado ou só... Todo dia diante do espelho... Diante de nós, quem sabe... Estamos diante de nada! Vivemos apenas a véspera de algo... Esse algo que nos surpreenderá a qualquer momento... Talvez... Só talvez, esse momento de que falo pode não ser a véspera de algo... Mas, o grande momento... Se quiseres, num dia desses, numa véspera qualquer... Alguém mire o vazio do espelho e faça desse momento o fato...
Afinal quem é que decide o que é a véspera e o que é o fato?