sábado, 19 de março de 2011

CILADA



“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá s'imbora!”

“Cabra-cega”?

E, na infância, somos mesmo todos a brincar e gargalhar, juntos e de mãos dadas, iguais... reais? Ou como “anjinhos” a sonhar a utopia da igualdade querida?

A menina na ciranda a girar crescia...

E, no meio da roda, com os olhos vendados, na brincadeira mesclada, sem perceber ou querer, o tempo a perpassava.

Girou, girou... Cansou... Suou! E assim, de repente, do nada, a venda de seus olhos escorregou...

Oh! Dom Quixote e seus moinhos de Vento!

O que seria tudo aquilo a seu redor? Seus olhos habituados à escuridão estariam agora a lhe trair a visão? Seria sua imaginação? Rodara tanto que teria perdido a noção?

Não entendia... Acabara de dizer um verso tão bonito... O mais bonito que sabia... E agora que parada se vira, vira-se cercada de assombração!

E o que seria isso em suas mãos? Todos sem exceção traziam empunhadas afiadas espadas miradas em sua direção: touché! E sua cabeça girava... girava como a repetir não sei... não sei!

Não... Não teria tempo de tentar entender mais nada, ou sequer nada. Seu sorriso de criança já havia desaparecido da face quando sentira o primeiro corte que a fina lâmina provocara e decididamente a despertara!

Não! Não era mesmo um sonho! Todos ali a cercavam e a atacavam... Por quê? Não sabia! E dissera um verso tão bonito... (Deveria, então, ter dito adeus e ido embora!)

Quanto tempo se passara? Enlouquecia, enlouquecera? Esquecera?

Não importa! Não importava mais! Urgia que se defendesse!

Mas, eram tantos a cercá-la e a desferir golpes e mais golpes... Mas, notou em choque que também ela estava armada. Como? Não sabia, mas em sua mão havia sim um sabre com o qual instintivamente se defendia.

Não demorou! Logo entendeu que não bastaria se defender. Cansou! Desmoronou... Até chorou; não adiantou... Nada os detinham! O que será que os moviam?

Quando menina, ali mesmo, naquela ciranda, sempre ficara ruborizada de vergonha – vermelha mesmo –; tímida que era, sentia medo da não aceitação de seus versos, que talvez não fossem tão bonitos quanto os quisessem.

Hoje, Agora! Agora também estava vermelha... Estava banhada com o sangue dos cortes que recebera... E dela, o sangue tudo tingia... Estava fria... Já não mais se reconhecia!
E ao longe ouvia o eco que se repetia: ciranda, cirandinha...

E, afinal, qual era mesmo o verso?

Não importava mais... Agora tudo era o inverso! Reverso!

Não havia mais risos, mãos dadas nem confraternização... Tudo só assombração!

Uma ciranda de malditos fantasmas que com mal ditos versos atacavam com mal ditas palavras a menina que declamara tão belo verso!

Sim! Este instante é mesmo uma ciranda! Ciranda que gira como girava as crianças d'antes... Mas, que não declama versos; os reclama!

A vida gira, gira... Gira! Te entontece... Enlouquece e...

E quem segura sua mão?

Grande Ciranda na qual todos cresceram e desenlaçaram as mãos!

Ah, Dom Quixote e seus moinhos de vento...

De tanto defender-se a menina cansou, desmoronou e até chorou...

E agora deve decidir: abrirá o peito para o golpe fatal? Ou como animal atacará como igual?

8 comentários:

  1. Querida...

    Lindo, denso, emocionado e profundo o seu texto!!

    Impossível não parar para ler, refletir e "adentrá-lo" de corpo e alma!

    Acredito que essa cena descrita acontece não só na infância, mas em todas as outras fases da vida... Quantas vezes nos percebemos embalados em sonhos, precisando acordar deles e, em seguida, voltando a sonhar de novo!

    A vida é efêmera... e nós, mais passageiros ainda!

    Um beijo com carinho e admiração!

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  2. Ah.. Tati!!!

    Você já é um carinho em minha alma...

    Obrigada...

    Beijocas-fascinadas

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  3. E uma amiga me falou: por favor, não desconsidere o fato de eu ser louca, rs). Mas é justamente a sua loucura que eu adoro, rsrs. Felizes são os loucos, que nadam num mar de criatividade, que vêem a vida arco-irizada, (nossa, criei uma palavra nova?), que vivem a metaforizar os sentimentos. Por isso que te adoro insanamente. Nunca perca a sã-loucura que existe em você.
    Bjussenlouquecidos.
    Bom domingo malukinho
    Sil

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  4. E quem segura a minha mão? Saudades de ti no TT ...

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  5. Nossa, não conhecia esse blog...mas como ?
    Texto lindamente escrito! Pura realidade dentro desse sonho nosso... mas é preciso crescer e viver, né?
    Mas te digo uma coisa: eu vou continuar insistindo em brincar de roda, cantar, dizer versos bem bonitos e não direi adeus!
    E que essas pessoas ( pessoas ? ou bicho-papão ? ) fiquem bem espertos, porque não os deixarei me dominar!!!
    Ciranda, cirandinha!!!!
    Beijos!
    P.S. adorei tanto que te linkei no meu blog! vou passar sempre aqui!

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  6. è justamente para não ver as adagagas que é bom manter a fantasia da infancia.

    Tudo é igual, os olhos que olham é que são diferentes.

    Um beijo, louquinha amada e linda!

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