sexta-feira, 27 de maio de 2011

PONTE...

 
 
 ....
 
 
E em seus ouvidos sentiu um doce e leve sussurrar... murmúrios líquidos que a faziam delirar...

(Havia uma brisa doce que os embriagava, enebriava e extasiava!)

Todas as palavras bem ditas foram caladas e como por magia se materializavam...

(Encantamento... Puro contentamento!)

E a alma, antes apenas descrita, agora preenchia o outro corpo com o corpo que a trazia vestida!

(E os dois corpos eram então preenchidos pelas almas ali tocadas... Com/partilhadas... Trocadas!)

E as palavras antes das mãos escapadas, agora deslizavam suavemente nos corpos sonhados... Não eram ditas nem escritas... Eram simplesmente o carinho que fluía das mesmas mãos!

(E em cada dedo um toque... Em cada toque um sentido sentido!)

Como a re/cor/dar algo pré/sentido e jamais esquecido...

E há encontros em que realmente nos (re)encontramos!

E assim apalpando, cheirando, tocando, gostando... Já colados, suados, um tão outro, que pareciam querer capturar, sugar aquele momento para sempre...

Sugavam-se, como entrelínguas ainda pouco degustavam-se... Respiravam-se! Poro a poro! E cada boca sugava da outra o néctar dos lábios beijados... e sugavam mais... como a querer sugar um ao outro, não só para dentro, mas para aquém do que até então foram...

E nos braços úmidos e quentes, eram um só abraço... O abraço que há tanto lhes havia sido negado; e há tanto sonhado...

Antes...

As almas entrelaçadas tendo os corpos afastados, de dor, entristecidas, assistiam os próprios corpos com saudade de um corpo que sequer o conhecia... E juntos, almas e corpos espiavam...

Desejavam... Latejavam!

(Agora Nus!)

Sonho!

Nus e úmidos num só abraço que já se fazia laço...

Nos olhos enternecidos não havia lugar pra despedidas!

Almas há muito perdidas... Desgarradas e sofridas, que agora jamais serão partidas!

Almas que transpiram no abraço dos corpos que as transvestem... Despidas!
 
 Amor agora sentido não mais nas entrelinhas, mas degustado entrelínguas... Com palavras mordidas e lambidas... sussurradas e sorridas.

Há sim muitos tipos de amores; e o amor entre almas é sublime... Mas há um desses amores que na distância do corpo, sucumbe de saudade... Aos poucos morre de sede, de desejo de um corpo que precisa percorrer, penetrar se apossar, empoçar! E aí então a outra alma de fato alcançar...

Abraçar!

E quem garante que há diferenças se o abraço se dá no dito real ou no sonho a transpirar... suspirar?

...

sábado, 21 de maio de 2011

Metade

Oswaldo Montenegro

Composição : Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.


terça-feira, 17 de maio de 2011

APLAUSOS!



 ...

Mão...
Mãos...
Que amparam ao nascer...
Que acarinham,
Que alimentam...
Que resgatam...
Que socorrem!
Mãos!
Que espancam!
Que machucam,
Que se armam,
Que fazem sangrar...
Mãos...
Que acenam...
Que encenam...
Mãos e um olhar...
Precisa mais,
Para nos conquistar,
Ou derrubar?
Mãos entrelaçadas a passearem...
Mãos levemente a se roçarem...
Mãos levemente entrelaçadas, e olhos a se olharem...
Mãos a se olharem, e mãos a deslizarem em devaneios em seus cabelos...

Nos próprios cabelos...
Olhos a se olharem, e mãos a deslizarem nos devaneios alheios... Colhendo uma lágrima estrangeira;
Como a significar que tudo é mão num corpo onde tudo se pode tocar.

Olhos cerrados...
Tudo tocado!
Tudo sentido!
Tudo querido!
Tudo um dia sorrido...
Outro dia chorado!
Um dia aplaudido,
Outro dia vaiado!

Mãos!!!

Mãos apertadas e queridas;
Mãos despedidas...
Mãos de adeuses inesquecíveis!

Quem nunca sonhou em ter uma mão a apertar na hora da partida?
Mão querida...
Mão amiga?

E os que foram por mãos feridos?
Mortalmente partidos por mãos malditas?
Mãos que não deveriam jamais ter nascidas?
Que deveriam ter sido partidas?

Mãos...

Mãos sempre estendidas,
Com certeza trazem sempre muitas cicatrizes...

Veja.
Olhe aqui...

Melhor!
Olhe as suas....
Vê o sangue nelas?
Já está escurecido, não é mesmo?
Não teve o respeito de limpá-las ou se esqueceu?
Terá sido este o seu castigo?

Por ter lhe estendido a mão, trago mais uma cicatriz...

E você?
Com essas mãos sujas, como tem se apresentado?
Como tem pedido falsa ajuda?
Ou a traz sujas de tanto rastejar?
Não importa?

É artista o que finge para viver?
A mentira é arte?
É melhor mentir do que roubar?

Juntemos as mãos!
Juntemos as mãos... E aplaudamos...
Aplaudamos todos...
Mesmo que abramos todas as cicatrizes...
Mesmo que com as mãos sangrando... Aplaudamos!
Aplaudamos os “artistas”;
Que nos estendem as mãos,
E a quem tão docemente estendemos a mão também...

Ao cair da cortina vermelha...
Aplaudamos!
Talvez, as lágrimas que insistem em cair não seja mais do que mera catarse...

Aplaudamos!
...

domingo, 8 de maio de 2011

Te/Sendo


...


Deposite sua alma em meu colo...

E aí delicada e deliciosamente colocada sobre meu coração permita-se penetrar minha carne, permita-se circular em minhas veias e artérias... e permita-me, assim, senti-lo misturado a meu corpo, a meu sangue... percorrendo todo meu ser, ao mesmo tempo em que envolve e oxigena meu cérebro e minha mente...

Permita-me sentir não só o palpitar de seu corpo em meu corpo... permita-me ser você e receba-me como pedaço do seu próprio ser...

Sei que isso parece extremamente romântico – e sei lá, talvez seja mesmo - mas a verdade é que tudo o que vivo tem de ser regado com alma... não concebo amigos, companheiros, companhias, nada, que realmente importe, sem alma...

Prefiro sempre almas do que corpos...

Mas há de haver corpos!!!

...

sábado, 30 de abril de 2011

CONFUSÃO







...


E a menina estendia as mãos...

Olhos arregalados, assustados, de tantas povoada!

Por dentro gelava, tremia, gritava, brigava e com tantas duelava... Quase se matavam!

Era todo um mundo!

Um mundo, que uma só menina só, desde a primeira meninice vira, como as antigas pólis, em si desorde/nada/mente se construir.

E em nome de cada vez mais necessidades, novas e avançadas acomodações eram em si levantadas, e, para tanto, via-se dia a dia pedaços de si implodir... desmoronar... Cair!

Às vezes calada assistia... Outras desesperava diante do vendaval de tantas idas e vindas, e tantas vidas dentro da própria vida... Do corpo da alma que a vestia!

E tudo estava lá... Está lá! Estampado em seu olhar brilhante: esbugalhado... Berrante!

Se não fosse ignorado...

Se a fitassem, viriam com certeza as mãos esticadas clamando solidão!

E há tantos que tanto reclamam desta tão dita solidão...

Como será ser só?

A menina só sabe o que é ser tantas...

Talvez para se ficar só, há alguns, seja necessária a companhia de uma voz externa... Uma mão amiga, que estendida os tire, os puxe da multidão que tantos são!

Pode-se esconder dentro de um armário fechado, em algum deserto jogado... E mesmo assim...

Mesmo assim, tantas vozes que não cessam, incomodam, impedem o silêncio de si... Não calam! Discutem, se contradizem! Algumas soluçam, outras gargalham, algumas pedem, outras desejam...

E são tantas: como haver solidão?

E a menina... A menina parece já não conseguir deter o que dentro de si já parece lhe prender; ela mesma havia construído prisões; queria acabar com a confusão; prenderia ali todos os baderneiros que em si suas regras e entranhas viviam rasgando...

Decretou, a menina, que como nela chegara primeiro, todos a ela deviam obediência e submissão!

Mas era só uma menina só!

E sozinha com todo aquele povo, com toda aquela multidão, assistia assustada a grande revolução!

A menina que não crescia já não mais podia... Vira-se ela mesma cercada, encurralada, e por todos presa na própria prisão...

Confusão!

E era com o olhar que estendia as mãos....

Como sair desta multidão?

...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

#EUSOUGAY POR UM MUNDO HARMÔNICO...

...
'Levanto-me contra o preconceito e ergo a bandeira de Vivas! E que vivam e deixem viver os diferentes!'


(Esta ideia e projetos foram postados em http://cirandasaosol.blogspot.com/ por Viviane; em http://minhasmares.blogspot.com/ e o vi também em http://umacombinacaoperfeita.com.br/ ...

Abracei a ideia! Vejam o porquê...

(Abaixo, reprodução, na íntegra, da página de lançamento do projeto #EuSouGay, espalhe essa idéia)


Sejamos Gays. Juntos.
abril 12, 2011
Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Tarumã, Goiás, no último dia 6. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.
Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.
Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.
E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.
Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.
Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?
Quero então compartilhar essa ideia com todos.
Sejamos gays.
Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY
Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:
1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY
2) Enviar essa foto para o mail projetoeusougay@gmail.com
3) E só
Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.
A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.
Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.
As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.
Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.
— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

By: ContextoLivre

quarta-feira, 13 de abril de 2011

DESPEDIDA...




...
E marejados, os olhos
no reflexo do outro,
Nevavam...

Lágrimas e sangue escorriam nas
brancas
mãos...

E no entanto...
no entanto,

O coração arrancado
Ainda pulsava na mesma
fria mão...
...


sábado, 9 de abril de 2011

PRESENTE


Seria um polvo?
Estaria eu acordada ou adormecida? Entorpecida talvez...
Talvez, de alguma forma, aquele momento fizesse parte de algum rito mágico... De passagem... Quem sabe?
Mas, como? Como fui parar entre aqueles tentáculos?
Bem... Não sei se eram de fato tentáculos... Não sei... Quem sabe era um polvo? Ou quem sabe todo um povo! Perdido... Esquecido... Quem sabe sempre lembrado... Quem sabe apenas alguém que valesse toda uma civilização...
Não sei... Sei apenas da sensação... E essa era mesmo a de ser completamente envolvida... Como se não fossem dois, mas muitos braços que se entrelaçavam ao meu corpo num abraço infindável e de tantos e tantos laços que não havia como fugir ou querer sair...
Nada nele me machucava, ameaçava, ofendia ou incomodava...
Tudo nele era (re)conforto...
E tão reconfortante que a ele me entreguei tão completamente que por alguns segundos cerrei os olhos para que a visão não pudesse confundir o que de fato se passava ali... E a lágrima que deles brotou depois era mesmo inevitável... E era de um tipo estranho... De um tipo raro... Difícil de se definir, mas talvez fosse a lágrima de uma saudade invertida... Talvez, saudade refletida... É isso, saudade refletida! Com certeza! Afinal, o que é a saudade senão a presença em nós de algo que nos é distante...
Ali, no conforto daquele abraço, era como se do avesso de mim, eu fosse abraçada por todos os braços dos que trago secretamente guardados no mais íntimo de meu ser; poeticamente falando, podemos chamar de coração... E, são tantos que amo... E são tantos que só vejo no reflexo de meu olhar... Que só vejo por dentro e pelo avesso... Claro que há um em especial... Sempre há...
Mas, assim... De repente, como que a saltar dimensões, como um portal que se abre, sem se saber o porquê, ali, de um lugar qualquer, rodeada, porém nem só, de estranhos e pessoas quaisquer... Minha saudade foi refletida, sentida, degustada, digerida e...
E... O que aconteceu afinal? Fui tudo tão surreal... Será esse o melhor termo? Talvez não! Mas, não importa...
Foi assim que recebi um abraço inesquecível... De quem afinal?
Estava eu bêbeda afinal? Sóbria? Viajando? Não importa! Não é disto de que estou falando... Alguém de carne e osso, alguém que eu nunca havia visto antes, de fato me abraçou... E há testemunhas, posso provar! E não havia intenções sexuais ( e não vou aqui entrar no mérito da questão), mas também isto poderia provar...
Mas o abraço físico também não é o foco principal... É do momento poético que estou a falar! Há tão mais coisas por de trás das coisas... Por que será que alguns não veem o que vejo... Porque sou louca?
Vou contar um segredo: não acredito em muita coisa não... Mas, àquele abraço, sei bem de quem o recebi e veio de dentro de mim...
E quantos detalhes são perdidos todos os dias na pressa, no corre corre das ruas... Nos afazeres... E até os prazeres acabam tendo de ser cronometrados...
Mas, afinal? Deu tempo de terminar este texto? Conseguiu? Percebeu as entrelinhas, leu correndo ou devagarinho?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

INSISTENTE DILEMA - I




É estranho constatar quantas coisas tenho caladas em mim... Algumas conscientemente omito e outras... Outras simplesmente não consigo dizer; são indizíveis... São minhas... Sou eu!

No entanto, tudo o que quero é ser lida... Mas ser lida na origem, no eu... Em vida... Carne viva!

Se tento me dizer... Se tento me traduzir, já não sou eu... Então... Então, percebo, que não devo ser lida, e que qualquer tentativa de me traduzir será frustrada... Devo ser decifrada!

Decifra-me ou serei devorada... Devorada pela própria deterioração do aborto não expelido...

O que conscientemente omito, omito por saber que posso estar enganada em meus julgamentos e ideias, omito às vezes por medo de interpretações equivocadas... Por inseguranças... Por incompreensões...

Mas há as indizíveis!
Essas de fato latejam em mim... Essas exigem a expressão... Compreensão! Então, entrego-me e mergulho nelas para que assim, sendo por alguns minutos elas, e elas eu, de algum modo sejamos percebidas, sentidas... Decifradas...

E mesmo assim, não posso! Tudo vão...

É também estranho perceber que o óbvio de mim, às vezes, me deturpa tanto... Tanto que me vejo completamente estranha no fundo de um olhar ora inquisidor, às vezes divertido... Pervertido... Sentido... Sem sentido... E no entanto, no entanto é tão óbvio que argumento algum provaria o contrário...

É sempre a mesma luta... É sempre a mesma busca... É sempre a mesma dúvida... o mesmo dilema.


E neste jogo, a observação necessária me faz ver que embora não entenda bem, embora tentando incansavelmente me decifrar... Você também luta... Você também omite e você também tenta dizer algo a mais...

Você também quer ser decifrado(a)!

... 


sábado, 26 de março de 2011

EM/CENA/AÇÃO!

Alguém disse certa vez que só há dois tipos de escritores: os que escrevem e os que não escrevem...

Às vezes... às vezes estou tão povoada de palavras que não consigo escrever ou descrever...

E às vezes... às vezes diante de alguma cena, que sei que é extremamente importante – crucial, mesmo – em minha vida... deixo meu corpo com as palavras e me desloco do corpo... e deslocada de mim, simplesmente assisto... Às vezes são cenas completamente hilárias... outras, pura emoção! Mas... mas há aquelas em que esse deslocar é pura proteção...

Um bom texto no contexto gêmeo é sempre uma excelente peça... E quantos belíssimos e comoventes espetáculos o teatro da vida é capaz de nos proporcionar... são presentes... sempre presentes...

Um dia desses, num desses espetáculos, chorei... Chorei justamente diante da cena em que eu chorava... Quando um ator é capaz de emprestar sua própria emoção à sua personagem, todos os espectadores também se comovem.. E eu assistida ali era muito mais do que as palavras ditas... era, principalmente, as não ditas; e por ter tanto a dizer me calei... nas minhas entranhas as palavras gritavam... discutiam... clamavam à atenção... queriam ser ouvidas... e mais... ser sentidas!
Houve tamanho atropelo entre elas, que no desespero pela tentativa de comunicação, todas se dirigiram às pressas para as cordas vocais... mas, como eram muitas... entalaram na garganta. E o nó que formaram permitiu a passagem apenas de umas poucas... bem poucas mesmo...

E eu ali assistia aquele eu sempre tão seguro, sempre tão falante... ali, diante do outro que no meu silêncio roubava a cena...

E então, ouvi-me dizer com lágrimas silenciosas: “Que belo texto isso daria...”
Algumas outras palavras se arriscavam na tentativa de desvendar o sentimento presente... e vestiam-se com suas melhores significações... mas diante da frieza no outro... uma a uma se viam despidas... tinham as entranhas arrancadas... e esvaziadas sucumbiam... Eram inúteis!
As palavras e os respectivos conceitos por elas formados só servem quando há ao menos um sentido...
A cena por mim assistida era comovente... percebia as linhas, as entrelinhas e as sobre linhas... Eu me via com lágrimas nos olhos e com lágrimas assistia... Mas ambas fomos caladas não com palavras... mas com um olhar...
As palavras do outro eram gentis... doces...mas eram todas tingidas de um amarelo gritante: covardia! Algumas pessoas se escondem atrás de belas palavras... outras se expõem... e as palavras servem igualmente... democraticamente à covardes e heróis... mas os covardes... esses sempre sobrevivem...
E era justamente esse o contexto daquela cena... Um covarde assassinato de um eu... E em lágrimas publicamente expostas uma morria e já era outra que assistia...

E desde aquele momento há tantas palavras em mim... que ainda estou tentando organizar uma fila para que desfilem o belo texto que uma triste história fará nascer... é triste sim... mas sem dúvida um espetáculo para ser aplaudido em pé...
É a vida na sua mais clara expressão...

sábado, 19 de março de 2011

CILADA



“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar... Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá s'imbora!”

“Cabra-cega”?

E, na infância, somos mesmo todos a brincar e gargalhar, juntos e de mãos dadas, iguais... reais? Ou como “anjinhos” a sonhar a utopia da igualdade querida?

A menina na ciranda a girar crescia...

E, no meio da roda, com os olhos vendados, na brincadeira mesclada, sem perceber ou querer, o tempo a perpassava.

Girou, girou... Cansou... Suou! E assim, de repente, do nada, a venda de seus olhos escorregou...

Oh! Dom Quixote e seus moinhos de Vento!

O que seria tudo aquilo a seu redor? Seus olhos habituados à escuridão estariam agora a lhe trair a visão? Seria sua imaginação? Rodara tanto que teria perdido a noção?

Não entendia... Acabara de dizer um verso tão bonito... O mais bonito que sabia... E agora que parada se vira, vira-se cercada de assombração!

E o que seria isso em suas mãos? Todos sem exceção traziam empunhadas afiadas espadas miradas em sua direção: touché! E sua cabeça girava... girava como a repetir não sei... não sei!

Não... Não teria tempo de tentar entender mais nada, ou sequer nada. Seu sorriso de criança já havia desaparecido da face quando sentira o primeiro corte que a fina lâmina provocara e decididamente a despertara!

Não! Não era mesmo um sonho! Todos ali a cercavam e a atacavam... Por quê? Não sabia! E dissera um verso tão bonito... (Deveria, então, ter dito adeus e ido embora!)

Quanto tempo se passara? Enlouquecia, enlouquecera? Esquecera?

Não importa! Não importava mais! Urgia que se defendesse!

Mas, eram tantos a cercá-la e a desferir golpes e mais golpes... Mas, notou em choque que também ela estava armada. Como? Não sabia, mas em sua mão havia sim um sabre com o qual instintivamente se defendia.

Não demorou! Logo entendeu que não bastaria se defender. Cansou! Desmoronou... Até chorou; não adiantou... Nada os detinham! O que será que os moviam?

Quando menina, ali mesmo, naquela ciranda, sempre ficara ruborizada de vergonha – vermelha mesmo –; tímida que era, sentia medo da não aceitação de seus versos, que talvez não fossem tão bonitos quanto os quisessem.

Hoje, Agora! Agora também estava vermelha... Estava banhada com o sangue dos cortes que recebera... E dela, o sangue tudo tingia... Estava fria... Já não mais se reconhecia!
E ao longe ouvia o eco que se repetia: ciranda, cirandinha...

E, afinal, qual era mesmo o verso?

Não importava mais... Agora tudo era o inverso! Reverso!

Não havia mais risos, mãos dadas nem confraternização... Tudo só assombração!

Uma ciranda de malditos fantasmas que com mal ditos versos atacavam com mal ditas palavras a menina que declamara tão belo verso!

Sim! Este instante é mesmo uma ciranda! Ciranda que gira como girava as crianças d'antes... Mas, que não declama versos; os reclama!

A vida gira, gira... Gira! Te entontece... Enlouquece e...

E quem segura sua mão?

Grande Ciranda na qual todos cresceram e desenlaçaram as mãos!

Ah, Dom Quixote e seus moinhos de vento...

De tanto defender-se a menina cansou, desmoronou e até chorou...

E agora deve decidir: abrirá o peito para o golpe fatal? Ou como animal atacará como igual?

segunda-feira, 14 de março de 2011

OUTRA DIMENSÃO

Perdida, louca, desvairada...

Adjetivos que nela atiravam!

E assustada por becos vagava...

Menina assustada; assustada mas valente também! Às vezes calava outras gargalhava.

O fato era que não se conformava; não se sentia daqui, não entendia bem as palavras, delas desconfiava... Sempre achava que elas eram todas grávidas de algo mais...

Os seres daqui dizem algo pensando em outro; e tantos outros tingem suas palavras com ironias e ambiguidades que a comunicação se dá por mero acaso ou quase telepatia...

Mas quando ela ousa desnudar a palavra dita e tantas vezes mal dita, pronto! Chovem adjetivos...

Louca! Não consegue controlar sua imaginação? Doente! Demente! Burrrrrrrraaaa!!!

E tanto se disse, que ela mesma se convenceu...

Mas, um dia... Tresloucada que estava, rompeu seus limites e mudou de dimensão!

Como sempre fazia, sozinha, por becos caminhava... Se real ou imaginário? Como saber, se era só que caminhava...

Pois bem; radicalizara: um belo texto a apaixonara...

E louca que era... Perdeu-se! O que fazer com tantas palavras que tanto podia dizer-lhe... Queria fosse só o que estava ali escrito... Não, não queria as entrelinhas, as metáforas possíveis, as ironias... Queria o texto objetivo – embora tudo fosse ali subjetivo como ela entendia o objetivo - como jamais havia conseguido ser! E o ser do texto dizia que assim o era...

E o texto era tão louco como louca era ela! Ela já estava lá em outra dimensão, abraçada em um texto que parecia tão seu... tão irreal quanto ela... E quando ela finalmente julgou ter encontrado alguém como ela... Quando ela finalmente o abraçou...

Quando emocionada ela o abraçou... Talvez ela mesma não tenha se feito legível... Mas, o fato é que ele com as mesmas palavras tingidas e fingidas a empurrou e com um novo adjetivo acrescentou: assombração! - Sai pra lá assombração!

Perdida, louca, desvairada... E, agora: assombração!

Terá sido um erro de interpretação? Uma alucinação! Aliteração?!

Assustada sim... Covarde não!

Feito fantasma, cada vez mais calada e assustada, a menina caminha por becos e palavras dessa e outras dimensões...

sexta-feira, 11 de março de 2011

ALIMENTANDO A HUMANIDADE

(CADA UM A SUA MODA)

Tudo o que há O que restou São fragmentos que não mais se encaixam
Mosaico destruído Pedaços espalhados Perdidos Corroídos Digeridos
A imagem no espírito permanece Intacta Intacto
O não-entender é agora mais nítido
A carne esfacelada do corpo esquartejado já não sangra Sangrou
Na sangria O sangue sangrado não fora desperdiçado
Vampiros Desnutridos também dele se nutriram
Quando indefesos Pequenos balançavam pendurados nas tetas que
sugavam
O corpo inteiro com eles se arrastava Doava-se
E sem ais deixava-se sugar Esvaziar
Latejava
Tantos desejos
E assistiu os seus perecerem
Eram tantas bocas Tantas carências saciadas
E a arrastavam E os arrastavam
E pendurados Descansados Corpos cresciam Almas pereciam
Envaideciam
No lacto branco que das entranhas escorria Sorriam
E as presas que nasciam Nas feridas que abriam Tingiam de rubro a
saliva que lambiam
Jazia Brotando na mente a semente Incoerente
Cruel o instinto foi desperto (Des)corberto No cheiro da presa já
ferida
E em coro No couro em que batiam um eco ao longe se ouvia
Aca..............................Aca..................................Aca
Dilacerada Ao ser devorada já sabia Entendia
Que ao ser degustada Era vaca o que gemias
Sim Era vaca o que comias...

quinta-feira, 3 de março de 2011

DISPERSAO

Por que estas malditas
lembranças?

Como casa
mal-assombrada; navio-fantasma, a esmo, eu, cada dia, um novo eu, à
toa, sentindo o sangue a me corroer através das veias como poderoso
ácido que me dilui...

Sou novo todo dia!

Não sou o que ontem
fui, me desconheço e assim também os desconheço... São todos
renascidos ao meu redor... Como se não dormíssemos; morremos e de
nós a cada dia outro se forma. Ou nos espalhamos como peças de lego
e de manhã somos remontados de novo num novo... Tipo: 'deixa-me
pensar o que montarei agora...'

Tudo um novo sonho! Uma
nova quimera...

Mas, então... Então,
por que estas malditas lembranças? Memórias que fazem parecer que o
eu-novo já fora eu-mesmo?

E este novo dia? De que
me serve um novo dia, se estou grávida de passados? Grávida de
fantasmas e de dias e fatos que me faltam tanto que sinto tanto e
tanta falta como se nunca os tivesse tido, vivido... Sentido! Como se
fosse desejos; uma necessidade vital... Fatal!

Sei que cada dia ao
acordar sou novo... Não sei quem sou! Não sei quem está ou estará
a meu lado, onde sequer estarei.

Falam em essência;
evolução... Balela!

Em cada  novo dia, cada
despertar, há uma certa magia que como tal não podemos explicar...
Tudo muda de lugar.

Falam de futuro, fazem
planos; outros dizem que há de se viver o presente que é isso o que
há!

Mas, então, pra que
estas malditas lembranças?

Estas malditas
lembranças que fazem suspirar... Levitar! Sentir tanta falta do que
fui, do que vivi como se de fato fosse uma falta de algo que
precisasse desesperadamente alcançar.

Não! Não é verdade
que o passado passou! Ele não passa! É ele que nos faz despertar e
crer que não somos o novo todo dia que nascemos de novo! O passado é
o único presente que se apresenta no dito presente e insistentemente
te repete sem pudor como gralha desafinada: você não é outro, não
é novo; lembre-se....

E a cada novo despertar
o passado passa a recitar tudo o que já fora e roda o filme com
efeitos especiais e com imagens mirabolantes e te prende; filme que
você talvez nem quisesse mesmo ver, saber; recordar! Queria mesmo
mudar! Talvez doa demais ;e talvez ele dure todo o novo dia para
terminar de rodar... E sua cabeça roda junto ,e você e seu mundo
tudo gira numa enorme cilada... salada em que o passado é presente e
o presente não existe jamais... Pois este movimento, talvez se
repita todo novo dia ao despertar... 

O passado não passa!

E, no entanto, o novo
eu se apresenta todo dia... Todo novo dia, em algum novo lugar,
cercado por novos seres... Esperando talvez a revolução; em
vanguarda!

Somos uma maldita
quimera...


Qmerda!

sábado, 29 de janeiro de 2011

INTERPRETAÇÕES

Como naqueles filmes em que tudo está em preto e branco, e do nada aparece alguém com detalhes coloridos, assim todos notavam aquela mulher que passava...
Cabeça extremamente erguida, como se outrora fosse da nobreza, óculos escuros, como se assim pudesse esconder dos outros a alma que a corroía... O que teria nela de tão secreto que quisesse esconder? No entanto, o colorido que expunha era tão chocante que era absurdamente inevitável não olhar... Mas, como seu próprio olhar não pudesse ser visto, sua expressão era desconhecida. Ao caminhar parecia gélida... Poderia se dizer: um iceberg ambulante... Mas, estava longe disso... Mas, como saber sem fitá-la, sem conhecê-la?
Andava, como já foi dito, de cabeça extremamente erguida, e os passos eram apressados, olhares mais atentos notaram as mãos tremulas... Se é que se pudesse chamar aquilo de mãos... Ta bom! Eram mãos... Mas... Mas, não havia pele... A mulher estava absolutamente deformada... Será que não sentia dor? Como conseguira sair de casa naquelas condições? Como conseguira colocar roupas? Como sustentava os óculos naquele nariz também sem peles... E... Aff... O que haveria por debaixo daquele vestido esvoaçante...
Será que tudo se poderia ver? Um coração palpitando entre os pulmões... Estomago e intestinos... Tudo estaria exposto?
Deus! A mulher estava pelo avesso!
O dia estava bonito, um belo dia de sol, porém fresco... Ventava gostoso... E seus cabelos longos e avermelhados esvoaçavam brilhantes como o de gente qualquer... Como se estivesse a passear ou a resolver negócios quaisquer... Parecia não se dar conta, não notar... Não ligar... Sua postura... Sua altivez...
Havia cochichos, burburinhos, todos sem dó nem piedade apontavam a mulher às avessas... Era mesmo uma aberração... E, não era necessário que se dirigissem diretamente a ela, ninguém se dava ao trabalho de ser sutil... Estava estampado na cara, e nos gestos de todos, que a queriam fora dali... Que a queriam trancafiada em algum lugar... Ou talvez em algum tipo de circo como aberração a ser apresentada como atração e distração... Que ali não era o lugar dela... Pois igual não era!

A comunicação é! A boca fala, o corpo cagueta!1 Por debaixo dos óculos escuros, a mulher tudo observava e tudo entendia... Não precisava dos ouvidos... Nada precisava ser dito... Não era telepata, e de telepatia não precisava... Neurolinguística meu filho... Neurolinguística!
E a mulher em carne viva... Vermelho-sangue, cabeça extremamente e exageradamente erguida a passos largos andava entre os em preto e branco...
Que bela cena para ser registrada... Que pena não haver por ali nem um fotografo de plantão... Quem sabe valeria um prêmio... Quem sabe não sairia na capa de alguma revista famosa, chic ou de fofocas... Não importa!
Não importa, principalmente, porque quem viu tudo isso foi a própria mulher do avesso...
Sim... A cena existiu de fato? Não sei! Eu mesma não estava lá... Não posso atestar com certeza... Confesso que apenas soube por acaso...
Mas, sabe aqueles dias, em que você sai de casa, e parece que se esqueceu de vestir algo? Ou àqueles dias, em que todos te olham tanto que você chega a ter a impressão de estar nu(a)? Pois é... Àquela mulher... Tinha certeza que estava do avesso! E quanto mais olhavam pra ela, mais esticava o pescoço e mais alargava os passos... Claro, que queria sair do meio daquela gente sem cor e sem graça... Queria ir pra qualquer lugar... Mas também não queria voltar pra casa... Lá todos olhavam pra ela do mesmo jeito... Sentia-se mesmo do avesso... Ou seria o mundo que estava... Afinal, nada tinha cor... Nada mais tinha tinta ou graça... Graxa talvez... Afinal, tudo era um só limbo... Do avesso, alma penada... Limbo...
Será que morrera?
Não! Tinha certeza, que ainda estava viva... Seu coração palpitava tão acelerado que já parecia entalado na garganta... Cada um daqueles olhares a acertava como uma flechada no peito... Por que no mundo, país, cidade em que nascera era agora tratada como estrangeira... Por que amigos, colegas e conhecidos de tão longas datas agora a olhava com olhos de forasteiros?
Bem... Devo confessar, que também eu a conheci menina... E... Bem... Posso garantir que não era uma garotinha muito normal não... Bichinho do mato... Calada demais... Estranha... Parecia um cofre... Havia nos olhos dela tanto medo... Lampejos de tantos segredos... Mas, depois, mocinha, melhorou... Pareceu-me que aprumaria na vida... É, por algum tempo, pareceu-me ter uma vida normal... Mas, agora vejo que se protegera com máscaras e máscaras e por anos e anos vivera um grande baile de carnaval e nele fez amigos e amantes e nesse baile sorriu e rodopiou... Rodopiou até entontecer... Enlouquecer e cair...
Caiu! E foram tantas danças e tantos rodopios que quando caiu, todas suas máscaras se partiram... E foi assim que se viu no meio da multidão do avesso...
Do avesso?
Do avesso nada! Se sentira do avesso, porque era só ela... Ela de verdade, sem máscaras no meio de tanta gente estranha sem cor e sem graça que fora amigos, amantes e colegas de suas máscaras... E, agora que ninguém mais a reconhecia? E agora que ela mesma enlouquecia com o que sentia? Com o que via e percebia...
Estava mesmo despida na multidão... E despida era só emoção! Mas, aquela multidão que tão bem conhecera um dia... Tudo era um só corre corre e no fim do dia mais um porre... Uma eterna agonia de contar o que se tem o que se quer ter, o que se guardou e o que se projetou... Quem mais trapaceou... Quem ganhou, quem sacaneou... Quem mais poupou? Notou quem está mais bem vestido... Quem comprou o melhor vestido... Quem é aquele maltrapilho? Quanto ganhou com aquele que fez perder? Brindamos a desgraça do alheio? Salut!!! E assim, anos e anos... A vida passou em preto e branco com tudo às avessas...
Então quando caiu... Quando caiu em carne viva... Quando enlouquecida se viu as pressas de cabeça erguida... Percebeu que mesmo dolorida e fugitiva é mais bem acordada e viva... Pois as avessas está o mundo a chorar por dentro... Escondido...
O que fazem os executivos, os advogados, os grandes e pequenos profissionais depois de seus porres (happy-hours) a noite em seus quartos com ou sem companheiros(as)... Pensam às avessas ou tomam seus calmantes e capotam até o outro dia em preto e branco a bailar?
Em carne viva, a louca, às avessas, ou melhor, do lado certo... Pura emoção... Está agora por aí a desafiar a visão de todos... Como a lembrar que a vida meu irmão é muito mais que dinheiro e televisão! Que propaganda e ostentação...
E ela doida varrida agora grita em algum lugar, que todas as águas chovidas, escorridas, que fazem desabar barracos e vidas não são mais do que lágrimas contidas, que nas noites escondidas escorrem não mais desunidas dos sonhos esquecidos para o real mundo vivido, para quem sabe acordar toda uma cidade adormecida...